Escotismo no RN

O escotismo no Rio Grande do Norte tem suas origens no ideal patriótico de Olavo Bilac, então presidente da Liga de Defesa Nacional. Em 1916, Bilac escreveu ao vice-governador potiguar, Dr. Henrique Castriciano de Souza, incentivando a criação de batalhões escoteiros no estado. Castriciano acolheu o apelo e, ao lado do comandante da Escola de Aprendizes marinheiros, Antônio Afonso Monteiro Chaves, e do professor Luiz Correia Soares de Araújo, iniciou a formação dos primeiros escoteiros potiguares com alunos do Grupo Escolar Frei Miguelinho. Em 24 de junho de 1917, esses jovens foram apresentados em desfile cívico em frente ao Palácio Potengi, sede do governo estadual, oficializando a fundação do escotismo no RN, tendo o próprio Henrique Castriciano como Presidente da Associação Brasileira de Escoteiros do RN.

Desde os primeiros anos, o escotismo potiguar destacou-se por sua forte atuação social. Em 1918, durante a pandemia da gripe espanhola, os escoteiros do Alecrim montaram postos de atendimento, realizaram 14.245 atendimentos e visitaram 354 famílias. Por essa contribuição, foram condecorados com a Cruz de Bronze pelo Conselho Superior dos Escoteiros do Brasil. Ainda em 1918, criaram a Banda dos Escoteiros do Alecrim, a primeira banda escoteira do Brasil, que estreou no mesmo ano com instrumentos adquiridos com apoio do governo estadual. Em 1919, com a liderança de Luiz Soares, o grupo do Alecrim foi elevado à condição de associação, dando origem à histórica Associação de Escoteiros do Alecrim.

Na década de 1920, o escotismo expandiu-se para o interior potiguar, com grupos formados em municípios como Lajes, Santa Cruz, Assú, Santana do Matos e Serra Negra do Norte. Em 1922, a Lei Estadual nº 549 instituiu o primeiro incentivo oficial ao escotismo no estado, bonificando professores pela formação de tropas escolares. Nesse mesmo ano, os escoteiros participaram ativamente das comemorações do centenário da independência do Brasil em Natal, destacando-se a presença de grupos de diversos municípios e das Escoteiras do Alecrim.

Em 1923, os Escoteiros do Rio Grande do Norte protagonizaram um dos episódios mais marcantes do escotismo nacional: o raid pedestre dos Escoteiros Andantes. Liderados por José Alves Pessoa e acompanhados por Humberto Lustosa da Câmara, Henrique Damasceno Borges, Aguinaldo Mendes Vasconcelos e Antônio Gonzaga, os jovens caminharam por sete meses e dezoito dias de Natal até São Paulo, sendo recebidos com honras pelo governador paulista e pelo presidente da Associação Brasileira de Escoteiros. No mesmo ano, a sede própria da Associação foi inaugurada no Alecrim, construída com apoio do governo estadual e projeto cedido pela presidência da república.

Também nesse período, o escotismo potiguar passou a manter contato com grupos internacionais, trocando cartas com escoteiros da Europa e da América Latina. Dentre essas correspondências, destacam-se as trocadas entre o professor Luiz Soares e o próprio Robert Baden-Powell, fundador do escotismo mundial — documentos preservados no Museu dos Escoteiro do RN, pertencente à Associação de Escoteiros do Alecrim.

Em 1925, foi fundado o primeiro grupo de Escoteiros do Mar no estado, sob a liderança do senhor Lauro Botelho, em parceria com a Colônia de Pescadores. Com atividades voltadas à cultura marítima, essa vertente tornou-se uma das mais tradicionais do escotismo potiguar.

Na década de 1930, a atuação dos escoteiros foi intensa e diversificada. Em 1934, fundaram a Policlínica do Alecrim, o primeiro hospital do bairro, funcionando inicialmente na sede dos Escoteiros do Alecrim sendo transferido para a sede atual construída pelos escoteiros na década de 1940. No mesmo ano, foi criada a Comissão Regional de Assú, com participação de João Marcolino de Vasconcelos (Dr. Lou), que mais tarde se tornaria o 55º Grupo Escoteiro José Nazareno Fernandes. Também se destacou a liderança do professor Acrísio de Menezes Freire, presidente da Comissão Regional dos Escoteiros do Mar, fortalecendo os grupos com identidade náutica, especialmente no bairro das Rocas. Em 1938 a Associação de Escoteiros do Alecrim foi elevada órgão máximo do Escotismo no RN por lei estadual.

Um dos marcos históricos do escotismo potiguar nos anos 1930 foi sua atuação na valorização da memória dos Mártires de Uruaçu. Até então, o culto aos mártires era restrito à comunidade local de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante. Os escoteiros foram os responsáveis por erguer o primeiro monumento em homenagem aos mártires naquele local, despertando o interesse da sociedade potiguar pela causa. Essa ação foi fundamental para tornar pública a devoção aos mártires no estado e é considerada um dos momentos mais simbólicos da integração entre o escotismo, a história e a fé do povo norte rio-grandense.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os escoteiros prestaram serviços cívicos, auxiliando a população com orientações de segurança civil e mensagens de apoio aos Aliados. Em 1946, após visita à Fortaleza dos Reis Magos, em ruínas, Luiz Soares encaminhou pedido ao presidente Eurico Gaspar Dutra pela restauração do monumento, cuja recuperação foi concluída na gestão do potiguar Presidente Café Filho.

Ainda nesse contexto, o professor Luiz Soares também desempenhou papel essencial no campo educacional. Em 1947, foi um dos responsáveis pela fundação das Faculdades de Odontologia e Farmácia do Rio Grande do Norte, instituições que mais tarde dariam origem à Universidade Federal do RN (UFRN).

Na década de 1940, desponta uma das maiores figuras da história do escotismo potiguar: Monsenhor João Penha Souza Filho, o Padre Penha. Ele iniciou sua vida escoteira como lobinho em 1935 e, após tornar-se sacerdote, foi um dos maiores difusores do escotismo no estado. Fundou grupos em Macau, Touros, Pendências, Alto do Rodrigues, Ipanguaçu, entre outros. Em 1981, já capelão da UFRN, fundou o Grupo Escoteiro Universitário. Recebeu as medalhas Tapir de Prata e Velho Lobo, e permaneceu por mais de 50 anos ativo no movimento escoteiro, sendo lembrado como evangelizador do escotismo no RN.

Em 1950, foi criada a Federação Regional dos Escoteiros do RN, hoje Região Escoteira do RN, tendo como 1º Presidente o próprio Professor Luiz Soares e como Comissário do Professor Acrísio Freire, esse episódio representa a união dos Escoteiros da Terra e do Mar no Rio Grande do Norte. Nesse mesmo período, Luiz Soares foi eleito vereador e vice-presidente da Câmara Municipal de Natal, recebendo em 1952 a Medalha Tapir de Prata. Com a estruturação da União dos Escoteiros do Brasil (UEB), surgiram novos grupos: o 1º Grupo do Mar Almirante Ary Parreiras (liderado por Francisco Gurgel), o Grupo Guy de Larigaudie (fundado por Monsenhor Penha) e o Grupo do Mar Felipe Camarão (chefiado por José da Câmara Palácio).

Em 1967, foi realizado o Acampamento do Cinquentenário do Escotismo no RN, sob a liderança de Francisco Gurgel e Ephigênia dos Santos, com participação de chefes como Boanerges Soares de Araújo, José da Câmara Palácio e do empresário Orlando Simas. Pouco tempo depois, faleceu o professor Luiz Soares, encerrando um ciclo histórico de 50 anos de dedicação ao movimento.

Nas décadas seguintes, novas lideranças assumiram o escotismo potiguar. Nos anos 1980, o professor Pedro Ferreira presidiu a Região Escoteira e implantou o projeto Escotismo nas Escolas, institucionalizando a presença escoteira em unidades públicas de ensino.

Na gestão do Presidente Bráulio André Dantas da Silva (2001 a 2006) o RN sediou dois eventos importantes, a Assembleia Nacional de 2001, sendo amplamente bem avaliada e o Mutirão Nacional Pioneiro em 2005, celebrando os 50 anos do primeiro MutPio.

A partir de 2007, sob a presidência de Carlos Roberto Pinto Lopes, foi retomado o projeto Escotismo nas Escolas em parceria com a Secretaria Estadual de Educação. O número de associados cresceu de 1.500 para mais de 8.000, tornando o RN a terceira maior região escoteira do país. Destaque ainda para aquisição do Centro Escoteiro da Juventude (CEJ), Campo – Escola dos Escoteiros do RN, numa área de 20 hectares no município de Maxaranguape/RN.

Em 2011, o chefe José Lourenço, então Presidente a Associação de Escoteiros do Alecrim fundou o Museu Escoteiro, pertencente à Associação de Escoteiros do Alecrim, reunindo mais de 600 peças entre uniformes, insígnias, fotografias e cartas históricas, incluindo correspondência de Baden-Powell. Em 2015, o RN sediou o 5º Jamboree Nacional Escoteiro, com mais de 5.000 escoteiros de todo o Brasil e do exterior — o maior evento escoteiro já realizado no estado. Em 2017, sob a presidência do professor Neto Varela, foi realizado o Acampamento do Centenário do Escotismo no RN. Em 2022 Ivan Nascimento toma posse como Presidente nacional da União dos Escoteiros do Brasil, sendo o segundo escoteiro oriundo do RN a alcançar tal feito, sendo precedido pelo Professor João Faustino na década de 1970. Por fim, em 2025, sob a presidência de Ambrósio Barros, o estado voltou a sediar um grande evento: o Acampa Nordeste, reunindo escoteiros de toda a Região Nordeste e de vários Estados do Brasil.

Com mais de um século de trajetória, o escotismo no Rio Grande do Norte continua sendo um pilar da formação cidadã e comunitária, moldando gerações de jovens comprometidos com os ideais de fraternidade, serviço e construção de um mundo melhor.